Achei bem interessante que vários olhos tenham se virado pra essa questão do bullying….
Demorou MUITO pra que isso acontecesse, mas… antes tarde que nunca, né? O que eu não entendo é o por que das pessoas só terem começado a se preocupar de fato com esse tema nesses últimos tempos. Afinal, o bullying deve existir desde a época de Jesus Cristo…. na boa.
A questão é a hipocrisia que existe por dentro do pensamento da nossa geração em relação a esse tema. Todos ficaram putos ou horrorizados com aquele vídeo do menino apanhando na escola, mas…. e você, que se emputeceu, que postou o vídeo no teu facebook ou qualquer outra rede social, que achou aquilo tudo um absurdo…Qual é o teu comportamento com os outros? Como você trata alguém que está fora dos TEUS “padrões”? Ou como vocês tratava os que eram “diferentes” na tua época de escola? Será que você tem alguma moral para criticar aqueles que “cometem o bullying”?
Eu sofri bullying dos meus 10 aos 19 anos. E não sei porque, mas tenho certeza que todos aqueles filhos da puta que fizeram com que aqueles fossem os piores anos da minha minha vida, também acharam absurdo o vídeo do garoto na escola. Se estes já estiverem casados e com filhos… creio que também achariam absurdo e emputecedor se seus filhos estiverem sofrendo bullying de qualquer natureza. E duvido muito, MUITO, que contassem a seus filhos que eles mesmo já foram os causadores de bullying quando adolescentes.
O bullying pode vir não somente em uma agressão física, como também agredindo a mente.
Vou contar um pouquinho do que aconteceu comigo….
A história é separada em dois momentos, que se juntam no final.
A primeira parte começa quando eu tinha 10 para 11 anos. Eu tinha recém entrado no Colégio Militar e, na época, eram 6 turmas de 5a série (atual 6o ano). Como eu era filha de militar, me colocaram em uma das turmas pares, pois os concursados entravam em turmas ímpares. Vou explicar um pouco como esse negócio de organização das turmas funcionava (e acredite, é bastante relevante):
Os concursados entravam nas turmas 501, 503 e 505, sendo a primeira, com os alunos que obtiveram as melhores notas na prova do concurso. A segunda, os melhores colocados depois dos alunos da 501 e a última, com os melhores colocados depois da segunda.
Os filhos de militar entravam nas turmas 502, 504 e 506. Só que aqui, a ordem funcionava de uma forma um pouquinho diferente: era inversa. Mesmo os filhos de militar tem que fazer uma provinha pra entrar –prova essa que não me lembro de ter feito porque meu pai demorou muito pra fazer a minha matrícula e acabei pegando a vaga na turma que sobrou. Então, essas “provinhas” definiriam em qual turma o aluno entraria. Os melhores colocados iam para a 506. Na 504 estavam os que foram mais ou menos na prova. E na 502, os que haviam se saído pior ou pessoas que entraram depois (ou por atraso na transferência do pai, ou qualquer outro motivo). Ou seja, para todos os alunos, os que estavam na 502 eram “os mais burros da série”. Eu estava na 502. E para quem estava na 502, muitas vezes era constrangedor dizer qual era a sua turma… pois nos chamavam de burros mesmo.
Eu nunca consegui fazer amizade e nem sequer falar com ninguém de turmas ímpares, pois me olhavam torto por ser não só de uma turma par, mas da 502! Até parece que eles iriam se relacionar com uma filha de milico que entrou por transferência e que ainda por cima era da 502.
O problema, pra mim, se agravava porque, na época, que eu me lembre, só havia 2 meninas que eram loiras (no caso, de cabelos naturalmente loiros) naquela série. Imagine: loira, na 502, com a música do Gabriel O Pensador a todo gás… Os alunos passavam por mim cantando “Lôraburra” pelo menos umas duas vezes por dia. É muita maldade. Não queria mais ir pra escola, chegava em casa chorando baixinho pra minha mãe não ficar sabendo que EU era a menina zoada do colégio…. Comecei a inventar que estava doente só pra não ter que encarar mais um dia naquele inferno. Essa situação toda fez com que eu, no mínimo, começasse a pintar o cabelo, que quisesse ser qualquer pessoa, menos eu mesma. E eu fiz, de fato, várias coisas pra ser bem diferente do meu natural: pintei os cabelos de vermelho, raspei as sobrancelhas, raspei as pernas, fiz mais um furo na minha orelha sozinha em casa, comecei a usar toneladas de maquiagem… Acho que criança nenhuma saberia assimilar e lidar com essa situação…
Enfim…
Os dois anos que seguiram, eu tive um pouco mais de paz. Sempre tinha um engraçadinho ou outro que ainda me zoava pelas mesmas coisas da 5a série, mas eu vinha com uma resposta idiota do tipo ” Seu verme, eu não estou mais loira… não tá vendo? Seu burro.” e eles iam embora. Só que, claro… sempre tem alguma outra brincadeirinha pra fazer quando a que está sendo feita começa a perder a graça. Menos mal que as “brincadeiras” eram muito mais leves … eram bem coisas de menino, sabe? Então, como eu disse…. tive um pouco mais de paz.
Depois desses dois anos, meu pai foi transferido para outro país… (raramente conseguíamos morar em algum lugar por mais de dois anos) E lá, tudo era extremamente diferente, principalmente a comida! Ahh… a comida! Era tanta comida tão boa… e tão atrativa!! Eu comi tudo o que eu tinha direito, o que não tinha direito e o tempo todo. Quatro ovos com muito queijo cheddar no café da manhã, refrigerantes diferentes o tempo todo, sorvetes com sabores que eu nem imaginava que pudesse existir, biscoito maravilhosos, fast food (amor eterno por Wendy’s e Popeye’s!) … e os doces então? Nossa…. Eu passo mal só de lembrar de tudo que eu comi! Mas o fato é que eu comi, e comi, e comi…. e, fora estudar, o que eu fazia ali era, basicamente, comer. (Acho que consegui explicar bem a quantidade de comida, né?) Mas isso é bem comum quando você é “pré adolescente” e vai morar num outro país, onde chega a ser um “universo diferente”. O problema é que, pela quantidade de comida consumida nessa época, eu engordei muito, MUITO. Mesmo. E é claro que eu sabia que estava gorda. Eu olhava no espelho e o meu excesso de peso era nítido. Quando eu ia pra escola tentar me focar nos estudos pra esquecer um pouco o meu peso, as minhas colegas de sala faziam questão de me lembrar que eu estava gorda. Foi péssimo. Tentei emagrecer e não conseguia. E aí, a inteligente aqui começou a ir por um caminho “diferente”: comecei a vomitar tudo que eu comia. Na época não se tinha muita informação sobre isso, não era nada que passava na televisão, nem tema abordado nas escolas. Eu sabia que não era exatamente o certo a se fazer, mas também nunca havia escutado nada sobre isso ser algo ruim, então…Lá fui eu! Joelho no chão, escova de dentes na garganta e a privada pronta pra receber o que o meu corpo precisava e a minha mente desprezava. Minha mãe descobriu que eu estava vomitando o que comia e me levou ao médico, qe me passou uma dieta e me explicou que aquilo que estava acontecendo comigo tinha um nome: bulimia.
Fiz a dieta da médica por dois meses e só serviu para eu nunca mais acreditar em médicos (to falando… adolescência é uma merda), porque demorei muito tempo pra emagrecer pouquíssimo. Ou seja… mesmo sabendo que essa idéia de bulimia era errada, me parecia menos errado estar gorda. Lá fui eu outra vez: privada, escova de dentes e joelhos no chão. Só que eu havia percebido também que isso de vomitar não me fazia emagrecer tanto quanto eu queria. Pensei: ” Não devo estar conseguindo vomitar tudo…”. Mais um “equipamento” foi adicionado ao ritual do banheiro: A coca-cola. “Ué!? Ela não desentope pia? É disso mesmo que eu preciso!”. (olha a merda….)
Enfim…
Passamos um pouco mais de dois anos naquele país e meu pai foi transferido novamente para o Brasil. Isso foi no final do ano, do meio pro final do 4o bimestre, então foi bem difícil de algum colégio me aceitar nessa época… e eu não podia, de maneira alguma, perder um ano de colégio.
Conseguimos, então, numa escola (que acho que não seria muito bacana dizer o nome) na Asa Sul, em Brasília. Já me tiravam de metida porque no meu primeiro dia de aula, a professora me apresentou pra turma e disse que eu havia chegado de outro país (adolescente é uma merda mesmo). Cheguei lá e as pessoas nem sequer me deram a chance de mostrar quem eu sou, e riam toda vez que eu abria a boca pra falar, afinal, eu tinha o sotaque bastante diferente do pessoal de Brasília (acho que ainda tenho). Quando vinham falar comigo, era sempre pra me zoar e eu não entendia o por que, eu não tinha feito nada pra ninguém.
Na minha segunda semana de aula, uma menina (que eu nem sabia quem era direito) veio tirar satisfação comigo sobre algo que não havia acontecido, a típica fofoca. A fala dela foi assim: ” Que tu anda falando mal de mim, sua escrota? Foi me chamar de galinha por que? Só por que tu queria pegar o fulano e não conseguiu? Só porque eu que consegui ficar com ele, é? Te enxerga, sua gorda escrota!”. Bom… o detalhe é que eu não havia falado mal dela, eu nem sequer sabia o nome dela, nunca tinha trocado uma palavra com essa menina, eu nem tinha amigos pra falar merda dela, eu nem sabia quem era o cara de quem ela estava falando e muito menos quem ela pegava ou não. Foi uma situação absurda. Mas o que me deixou mal de tudo isso, foi ela me chamando de “gorda escrota”. Isso já afetaria qualquer garota com 16 anos, mas ser chamada de “gorda” afeta muito mais a quem já está com a maldita bulimia. No mesmo dia, ela e as amiga vieram atrás de mim na hora do recreio, na quadra de basquete. Se o professor de educação física não tivesse chegado ali na hora, eu teria (no mínimo) saído com alguns quantos fios de cabelo a menos. Mas é claro que elas não iam deixar isso barato…. vieram atrás de mim na saída e, pra me livrar dessa merda que eu não sabia onde poderia terminar, pedi desculpas por algo que eu nem havia cometido e me fiz de pobre coitada: era bem melhor que elas sentissem pena de mim do que raiva.
Mas… eu fui motivo de chacota até meu último dia naquele colégio.
De zoação em zoação, logo chegaram as últimas provas do ano e, entre elas, a prova de português. A minha prova foi um desastre! Eu já tinha no meu dia-a-dia outros idiomas. Então, adicionando mais esses pouco mais de dois anos fora, sem falar ou escrever qualquer palavra sequer em português, a gente acaba esquecendo algumas palavras mesmo. E a professora viu uma questão que eu havia respondido de forma correta mas com o português todo errado e comentou o acontecido na frente da turma toda. Aí a merda toda explodiu, todos riram e a professora simplesmente cagou para o que estava acontecendo. Um dos meninos da sala (que era o manda-chuva dos meninos) pegou a minha prova para ver quais haviam sido os meus erros, leu para a turma e falou que, além de gorda e fofoqueira, eu era burra. Mas que ele me admirava muito, porque “não sabia como eu tinha a coragem de sair de casa com aquela quantidade de banha”.
Esse dia foi o fim pra mim. Nunca havia me sentido tão mal em toda a minha vida. Mal, rejeitada, gorda, feia… Nem conseguiria descrever exatamente o sentimento que tive naquele momento.Mas, apesar de ter sido o pior dia, foi o dia que marcou o “fim de uma era” pra mim: prometi pra mim mesma que ninguém, nunca mais, me chamaria de gorda.
Foi, de fato, o “fim de uma era”…. “fim” esse que deu início a uma era bem pior: eu simplesmente parei de comer.
Bom.. não pareeeeeeeei parei de comer… eu passei a consumir, por dia, uma barrinha de cereal de 55kcal e litros e litros de água. Dessa vez, o meu “equipamento” era composto por laxantes de todos os tipos, remédios para “diminuir medidas”, inibidores de apetite, uma balança e uma fita métrica e um novo nome para o problema: anorexia.
A fase da anorexia eu conto em outro post, porque… haja saco para ler tudo! Por isso, vou resumir o que aconteceu:
Passei 6 meses com anorexia, consumindo somente aquela barrinha de cereal, água, laxantes e tal. Acho que essa é a parte mais difícil de imaginar, mas tenho fotos disso e minha mãe de prova que cheguei a pesar 34kg (com 16 anos e 1,59 de altura). Ia a vários médicos que começaram a me passar um monte de remédios antidepressivos, o meu estado de saúde ficou extremamente complicado e, segundo minha mãe, a médica lhe havia dito que o máximo que eu aguentaria viva nesse estado, era dois meses.
Sair da anorexia foi quase missão impossível mas eu consegui… só que saí dela pra voltar para a bulimia (que também contarei em outro post).
Só consegui sair dessa doença toda aos 19 anos. Melhorei e tive uma recaída no ano que seguiu. Hoje em dia estou bem, sou uma pessoa feliz com tudo que tenho e que sou (tenho meus altos e baixos assim como qualquer um), curada e balança é algo que só voltei a chegar perto quando engravidei… e depois, nunca mais quis saber dela desde que meu filho nasceu.
Agora… me chame de mente fraca ou do que quiser, mas o fato é que adolescente nenhum sabe lidar com a maioria das situações, sempre faz alguma merda muito grande, não dão a mínima para o que os pais falam e acreditam somente nos outros da mesma idade ou do mesmo “círculo”… ou naquilo que estão vendo na televisão ou no que acham bonito. Mas foi por todos “os colegas”, desde pequena, “terem me mostrado” que eu seria uma pessoa “decente”, “normal”, “aceitável” se eu não fosse eu mesma…. foi por eles falararem e demonstrarem que eu tinha um aspecto “escroto”, “repugnante“, “feio“, “motivo de piada” que toda essa merda que me fizeram passar quando era adolescente aconteceu. Problemas que poderiam, fácil, ter me levado dessa para o fundo de um caixão (ou pó, não sei).
Tudo isso aconteceu aqui, em Brasília. E como Brasília é a pequena grande cidade de interior (não só na mentalidade das pessoas, na falta do que fazer, mas também, porque todos basicamente se conhecem….) , a gente acaba encontrando com as pessoas nos shoppings, nos clubes, enfim… E é curioso ver que algumas dessas pessoas que tanto me fizeram mal, que tanto brincaram com a cabeça de uma menina em formação, estão casadas, com filhos… E é ÓBVIO que qualquer um que tem filho tem medo de que ele/ela sofra com bullying na escola. Todos nós ficamos putos, boquiabertos e achando um absurdo as histórias que tem passado na televisão e divulgadas na internet sobre crianças que sofrem com isso. A cada dia mais TODOS pensamos aonde este mundo vai parar com tudo isso, se até nossos filhos, desde pequenos, estão sujeitos a toda essa maldade que, várias vezes, pode levar à violência dentro e fora da escola.
O difícil é ver a culpa que cada um tem nisso e que fez esse tipo de coisa acontecer cada vez mais. É ver o quanto você contribuiu para fazer a vida de uma criança/ adolescente/ colega de escola um inferno. Seria absurdo até pra você, que já foi um dos que contribuíram para que alguém sofresse bullying, que seu filho sofressse algo do tipo. É fácil condenar algo sem pensar se esse algo faz parte das suas ações no passado. Fácil é ter medo de que façam com um filho teu o que você (que… vai ver que ainda nem se tocou ) já fez com o filho de alguém.
Agora… onde começa tudo isso? Na educação que a família dá? Na educação que a escola dá? No convívio com os coleguinhas? Com a televisão? Com o videogame? Como se cura esse problema? Com palestras nas escolas? Brigando com as crianças cada vez que elas fazem graça da cara de alguém? Eu realmente não sei. Acho muito difícil de responder a essas perguntas. Creio que o que NÓS podemos fazer em relação a isso é pensar sempre que temos que cuidar de fato do que é nosso, porque, se não o fizermos, ninguém, NINGUÉM vai fazer por nós. E “cuidar do que é nosso” é não só o óbvio (tá… que pra MUITA gente ainda não é óbvio) de cuidar da própria vida, e não da vida do outro que não nos diz respeito, mas cuidar dos nossos pequenos (sejam estes filhos, sobrinhos, afilhados, enfim). É ensinar o que é respeito, que apesar de TODOS sermos diferentes por fora, somos todos iguais por dentro: todos ficam tristes, felizes, amam, choram, sentem dor de barriga, tem espinhas na adolescência (salvo os casos abençoados)… Que se não gostamos quando nos fazem sentir mal , pra que fazer o outro se sentir mal também? Que o nosso espaço termina onde começa o do outro. Deixar claro que a forma de aliviar o seu sentimento de dor em relação a qualquer coisa, não é descontando nos outros, levando- os pra baixo com você. Não só isso, mas temos que observar as nossas próprias atitudes para com os outros. Nós temos que ser o exemplo.
Espero que agora, com todos esses olhos e holofotes voltados para o bullying, as crianças sejam mais poupadas dessa maldade, que consegue azedar uma infância/ adolescência que deveria fazer parte dos melhores anos, da “caixinha de recordações” mais preciosas de qualquer um.
Para quem tiver paciência para ler e à quem interessar: depois postarei sobre a anorexia e a segunda fase da bulimia.
Boa noite.







